25/04/2022 às 12h33min - Atualizada em 26/04/2022 às 06h20min

Governo precisa olhar para o transporte coletivo como política pública, não como fonte de receita

Por José Claudinei Messias, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários da Zona Sorocabana

SALA DA NOTÍCIA Fernanda de Souza Martins
Faz bastante tempo que os ferroviários alertam sobre os perigos de tratar o transporte público como um setor de menor importância. Ora, se a categoria é responsável por conduzir milhões de pessoas por dia aos seus locais de trabalho, casas e demais compromissos e o transporte coletivo de massas é um serviço essencial, por que então os profissionais não são tratados como atividade relevante que têm políticas públicas como saúde, educação, assistência social e segurança?
As recentes ocorrências com as linhas 8-Diamante e 9-Esmeralda, agora operadas pelo consórcio ViaMobilidade, são exemplos evidentes de quanto o governo estadual se esquivou da responsabilidade de manter um serviço de qualidade para a população e o mínimo respeito aos ferroviários.
Sempre falamos sobre os riscos da concessão privada, principalmente, em termos de tempo de transição entre o órgão púbico e o setor privado. Afinal, não existem “cursos para maquinistas” em escolas técnicas ou superiores por aí, o estado abdicou disso no passado. É preciso treinamento interno, que dure entre 8 e 10 meses. Não foi o que aconteceu com os funcionários contratados pela ViaMobilidade e o resultado comprova isso.
Dos atuais 2.100 funcionários da ViaMobilidade, apenas 50 atuavam na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Isso significa que apenas 2,4% da equipe que trabalha nas linhas 8 e 9 têm experiência com as ferrovias! Todos os demais estão sendo treinados enquanto trabalham, o que tem causado problemas recorrentes ao sistema e aos usuários.
O tempo de transição e treinamento foi muito curto, mas quem se importa com isso no governo? Se os recursos da concessão já estão na conta, por que se preocupar?
Afinal, quem toma as decisões não usa o transporte público e, por isso, acredita ser melhor o que traz mais receita e exige menos trabalho do Estado. Fica aqui a lição para quem deseja privatizar toda a CPTM.
Vamos aos números reais. Desde que as linhas Diamante e Esmeralda passaram a ser operadas pela ViaMobilidade, o número de falhas mais que dobrou. O consórcio, acostumado com a boa operação das linhas 4-Amarela e 5-Lilás do Metrô, pensou que as antigas linhas da CPTM compusessem um sistema parecido. Dessa forma, tem penado com as grandes diferenças entre ferrovia e ‘metrovia.
Vale lembrar que a linha 4 Metrô foi feita, do início ao fim, pela iniciativa privada. Já as linhas 8 e 9 da CPTM estão em funcionamento há décadas e seus sistemas, mesmo com as modernizações, são completamente diferentes, em comparação aos trechos já operados pelo consórcio.
Fica claro que o governo paulista não analisou a questão com a profundidade devida quando ofereceu as linhas da CPTM para a iniciativa privada. Não houve cuidado, não houve explicação sobre o eram as linhas e quais as necessidades para operá-las sem falhas. Foi apenas uma venda, ou melhor, um jeito que o Estado arrumou para se “livrar” de parte de um serviço essencial.
O Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários da Zona Sorocabana segue ao lado dos ferroviários e da população, exigindo que o Poder Executivo se posicione e entenda que não se pode brincar com a segurança de funcionários e usuários. É preciso cuidado e um plano de ação para que o sistema funcione. É preciso fiscalização e, principalmente, tomada de decisão que ajude a operação a melhorar e não causar pânico em quem precisa embarcar nos trens diariamente, tratando o transporte público de passageiros tanto ferroviário e metroviário quanto rodoviário, em especial em regiões metropolitanas, como Política Pública.
 
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